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RAIO NEGRO: UM HERÓI CARISMÁTICO
Franco
de Rosa
Nenhum super-herói brasileiro atingiu a dimensão
de ídolo como o simpático Raio Negro,
criado por Gedeone Malagola em 1966. Naquele período,
a corrida espacial despertava curiosidade nos brasileiros,
recém saídos do mundo rural, quando
os gibis ainda eram vendidos dependurados em varais,
em bancadas de caixotes, onde ficavam os jornais.
Sempre perto de um bar, padaria ou armazém.
Então estava lá, ao lado de Superman
e Batman, um novo gibi com um novo herói mascarado,
usando um simples traje negro. Nesta edição
de estréia revela-se a origem do herói.
Ele é o piloto da FAB, o tenente Roberto Sales,
que em sua primeira missão secreta em vôo
orbital, encontra um disco voador avariado, original
do planeta Saturno e, ao salvar seu ocupante da morte,
recebe em agradecimento um anel magnético que
o transforma em um super-herói: o poderoso
Raio Negro! Que só tem poderes em defesa da
justiça.
Nada muito original. Mas simples e direto. Assim como
o uniforme do herói: camisa e calça
pretas. Luvas e botas douradas. Sem cinto de utilidades
e aquela cueca por fora das calças comum nos
supers. Graficamente, o efeito do traje preto nas
páginas do gibi em preto e branco funcionam
muito bem. A máscara do Raio Negro foi inspirada
na do Ciclope dos X-Men. Mas quando Raio Negro foi
lançado, os X-Men ainda não eram conhecidos
no Brasil. Lanterna Verde, era outra referência
clara no personagem de Gedeone.
Inspirado em Green Lantern e Ciclope o herói
emplacou assim que foi lançado. O gibi teve
13 edições consecutivas, um almanaque
e ainda algumas aventuras inéditas em edições
especiais da GEP - editora que o publicava. Em 1982
foi relançado em uma edição de
100 páginas pela Grafipar de Curitiba, e em
1989 com história inédita pela editora
Phenix.
Raio Negro sempre foi escrito e desenhado, com exceção
da edição 13, assumida por Edmundo Rodrigues,
por seu criador Gedeone Malagola. Que é o criador
do pioneiro gibi de terror brasileiro do início
dos anos 50, da editora Novo Mundo. Mas foi no número
três de Raio Negro que surgiu a principal atração
do gibi, o vilão Op-Art, que, visualmente,
é auto-retrato de Gedeone. Um vilão
que provoca efeitos visuais psicodélicos para
enfrentar seus inimigos. Mais uma vez, o autor, com
o uniforme do herói, buscou recursos gráficos
simples, mas com ótimos resultados, para solucionar
questões estéticas em um gibi em preto
e branco. Op-art é uma alusão a Pop
Art, o movimento dos anos 60 que tem Roy Lincheistein
como um de seus mais cultuados autores. Gedeone, com
seu traço limpo, revelou-se o grande artista
Pop dos gibis, sem similar em todo mundo.
As aventuras do Raio Negro não eram confusas
como as de Superman, cômicas como as de Batman,
nem dramáticas como as da Marvel -- estilos
que predominavam na época. Raio Negro apresentava
maior influência da narrativa fictícia
dos seriados cinematográficos dos anos 40 como
Buck Rogers, Flash Gordon e Homem-Foguete, que Gedeone
assistia quando criança. Super-herói
não era bem sua praia. Em 1965, ele era o mais
conceituado roteirista de gibis de São Paulo.
Assinava os roteiros de A Múmia e O Lobisomem,
duas obras primas do terror nacional que merecem um
outro artigo.
Porém, para o garoto leitor brasileiro, o que
mais atraía nos gibis do Raio Negro era o fato
de desfilar por seus quadrinhos o helicóptero
Minas Gerais da nossa Marinha e ter a Baía
da Guanabara como cenário. Ver Raio Negro sobrevoar
o Palácio da Alvorada e reconhecer um monumento
paulistano como palco de um duelo. Outra coisa curiosa
é que Raio Negro não foi criado com
a intenção de ser o astro do gibi. Na
verdade, Gedeone criara o Homem Lua, para ser a grande
atração de um novo título da
GEP, e Raio Negro surgiu apenas para completar o gibi.
Tanto que as primeiras edições trazem
aventuras curtas do herói. Prevaleceu a opinião
do editor Miguel Penteado, dono da GEP, que viu em
Raio Negro o que o público buscava. Um herói
brasileiro carismático.
Matéria
publicada na revista Comix - 1º trimetre de 2001